
Sou mestre na arte de falar em silêncio.
Toda a minha vida falei calando-me
e vivi em mim mesmo tragédias inteiras sem pronunciar uma palavra.
Fiódor Dostoiévski
Amar-te nunca foi difícil. Resistir-te, isso sim, foi uma tarefa complicada. Amar-te não. Nem quando vinhas com demasiada bagagem que remexíamos com cuidado. Tinhas a mala aberta, no chão do quarto, e éramos duas crianças encantadas com as maravilhas que de lá saiam. Eu sabia mais de ti e tu lias mais de mim, no meu ar de espanto e olhos lacrimejantes. Havia tesouros que de teus passaram a nossos e houve mundos que se criaram, ali, naquele quarto transbordante de cores e cheiro de infância. Muitas vezes quis que me contasses a tua história e demasiadas vezes tive que adivinhá-la no teu semblante fechado. A proximidade das almofadas, em jeito de submissão, denunciavam o quanto nos queríamos e tu ali, tão próximo, a dois dedos de mim, era mais do que alguma vez pedira. Gabavas-me os lábios que palminhavas com os teus e sentia na pele como os nossos cheiros se misturavam, num perfume delicado, impossível de reter. Foste o meu melhor amor e um dia, quando as crianças me pedirem histórias felizes, é de ti que falarei. De ti e do teu olhar rasgado, de peixes verde-mar, de como contigo era sempre Verão, mesmo quando a chuva quebrava contra o vidro da janela fechada. E elas compreenderão que a saudade é um doce caminhar, quando se escolher o Amor como caminho.
"Eu sei que não acerto com o português, que não sou entroncado o suficiente para te proteger de tudo quanto queria, e que repito demasiado a mesma coisa quando estou entusiasmado. Que às vezes me desligo um bocado e deixo de perceber que o teu coração tem muita coisa lá dentro e a maior parte do tempo (do tempo, do espaço) não está arrumado. Eu sei que não me devia importar quando me tiras fotografias aos pés. Mais que tudo, eu sei que te sentes frustrada quando te tento ensinar a andar de skate e tu não consegues. Mas foi essa tua dissincronização toda que me fez gostar de ti assim, tão devagarinho. Não foi o teu excesso de vocabulário, a cor do teu cabelo, as tuas notas na escola e o facto de termos os dois o mesmo nível de pontualidade (não nulo, quase nulo). Não foi tão pouco a tua paixão pela arte ou a nossa adrupta parecença e diferença em certas coisas. Mas a tua maneira de estar tresloucada e a maneira como gostas de saber rir-te sozinha."
