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Os olhares falam as palavras que a boca não pronuncia, talvez esse seja afinal o nosso sentido mais apurado.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

One place

Falo-te do único sítio onde apenas o silêncio me pode interromper.
Falo-te no desvelar da noite, de pés soterrados em castelos que outrora o mar levou, entre um vento que tem tanto de intrometido quanto de apaziguador. 
Falo-te de olhos no futuro que progride num horizonte de perder a vista.
E escrevo-te. 
Porque sei que precisas de me ouvir na tua voz. Como se cada palavra minha fosse validada por cada centímetro do que és. E serás.
Como se te erguesse dos pensamentos que tantas vezes te toldam, por esse mergulho na obstinação de colocar hipóteses à frente de factos, na esperança de ser a idoneidade das circunstâncias, o encontro com as tuas expectativas.
É nessa prudência estratega que a ti me levo.
Como quem só te deixa um bilhete a lembrar que uma hipótese não mais é que o que querias que fosse, não o sendo. 
Como quem te veio recordar que esse teu prazer não encontra destino por não se saber na rota. Porque lhe andas ao encontrão descoordenado, numa certeza que em olhar alheio, não te domina nem prevalece.
A ti, mais evoco. A uma lucidez peremptória, de quem já deveria saber que
clamar ao destino é cortar-lhe as intenções. Como quem sucumbe ao medo do que está para vir, julgando que sabe mais de justiça que a própria vida.
Falo-te assim. Na forma ímpar, digna de quem só conhece a verdade. A tua. 
E essa é de que acordas todos os dias um paradoxo de quereres.

domingo, 22 de março de 2015

FOTO-GRAFIA

“A honestidade é uma droga. Vicia-nos. Com razão. Nunca se esquece quem não só não nos mente como nos diz a verdade. Tal qual a conhece. Que é sempre melhor do que nós.”
 Miguel Esteves Cardoso

domingo, 8 de março de 2015

We are equal

Num dia que é da Mulher, escolho o Homem.
Escolho-o, porque escolhê-lo, é escolher-me a mim.
Escolho-o porque, num dia em que dizem que sou grande, o vejo do meu tamanho.
Porque o olho como se me olhasse a mim.
Escolho-o porque encontro nele a fé que deposito em mim.
Escolho-o, hoje, porque tive a sorte de um Homem - um grande - em todos os dias me ter escolhido a mim.
Não o escolher num dia em que dizem que sou a mais forte, seria condená-lo a ser o mais fraco.
Escolho-o porque escolho a igualdade entre géneros. 
Porque acredito que esse direito e essa condição de justiça chega para um sem faltar para o outro.
Mas, num dia que é da Mulher, aceito as rosas. 
Aceito-as por, num dia que é meu, fazê-lo dele também.
Aceito-as até mais nenhuma Mulher precisar deste dia.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

D'um

Há relacionamentos em que o amor é uma sentença de morte.
Subsistem a pagar-se em moedas diferentes e, nessa cobardia, fingem receber o mesmo troco.
Chamo-lhe desamor por não dar lucro.
Tem o prejuízo a morar, constantemente, na submissão de uma vontade pela do outro, no sonho que se torna outro por medo de se perder o que a ninguém pertence, na mentira de agrado que custa cada verdade do que se é.
Não há nenhum amor que respire no egoísmo de quem pinta o quadro à sua maneira, como quem se esquece que é o amor o único propósito.
É como um dominó - aguentam aqueles que nunca deixam cair a primeira peça. Porque há respeito por uma identidade para além da sua.
E ganha-se; quando duas verdades convivem sem esforço, quando não deixam de existir dois depois de se saberem um.
 Ganha-se tanto.

domingo, 9 de novembro de 2014

365, words



Gostar de escrever é um privilégio. 
Porque se criam histórias na história das pessoas. 
 Escrever é prezar as palavras como se lhes ouvíssemos o coração. Que nada mais são que a exteriorização do que passa cá dentro. De uma forma mais lúcida. Mais limpa. Consciente.
Gosto sobejamente de escrever.
Porque vejo na escrita o encaixe de umas pessoas nas outras. Que, não sendo o puzzle perfeito -, por cada um entender uma verdade à semelhança da sua - tem a capacidade de, a jeito de convite, fazer alguém entrar numa pele diferente, sem se desnudar da sua.

sábado, 25 de outubro de 2014

Fall behind

 Suspeito impreterivelmente dos que não têm sobre algo uma fome em atraso. Daquelas para anteontem, sabes?
De quem não perde o fôlego de tanto desejar isto ou aquilo porque não se deixa consumir até à última gota.
Não gosto de pessoas que não morrem na exaustão de tanto querer. Das que têm uma paixão à dose.
É que a única forma de nos pertencermos por inteiro é a escolher pelo que morrer. Como quem dita a própria sentença.
Hoje, mas também ontem, e em tantos outros dias que tu e eu sabemos contar, não sei o que é sair de casa sem correr. Saem-me sempre 5 minutos mais cedo.
Mas somos felizes assim. A correr em contra-relógio. A ver quem verga.
Sim, não morro de amores por uma só coisa. Mas é por isto que a felicidade existe em vários tamanhos.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

(Parênteses)

Há pessoas que são o nosso parênteses. 
Um segredo trancado.
Cabem-nos no silêncio. Em pormenor de história. 
Roubamo-las ao mundo sem desculpas ou explicações; como se se tropeçasse na sorte grande.
É dessas pessoas que gosto. 
As que nos acrescentam um conto, em vez de um ponto.
As que, por nos darem tanto, damos tão pouco.