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Os olhares falam as palavras que a boca não pronuncia, talvez esse seja afinal o nosso sentido mais apurado.

domingo, 13 de julho de 2014

Centímetros


Mas mais que a vontade da pele a reinvindicar o toque, como quem chama e instiga o outro, quero a palavra.
Quero-a porque dá-la a alguém é jurar-lhe que o tempo não engole a promessa.
É a única forma de dar mais todos os dias, quando se crê já se ter oferecido tudo. Quase como quem explora evasivamente uma mina para lhe extrair o melhor em bruto.
E sem subterfúgios, admitir que exijam o mesmo. Nem mais nem menos. Apenas na medida em que o apoio em bicos de pés seja a solução, porque de todas, é a única que dá o que começa a fugir de alcance.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Must-read

Mitch: Weren’t you afraid to grow old?

Morrie: Mitch, I embrace aging.

Mitch: Embrace it?

Morrie: It’s very simple. As you grow, you learn more. If you stayed at twenty-two, you’d always be as ignorant as you were at twenty-two. Aging is not just decay, you know. It’s more than the negative that you’re going to die, it’s also the positive that you live a better life because of it.   

Mitch: Yes. But if aging were so valuable, why do people always say, "Oh if I were young again." You never hear people say, "I wish I were sixty-five."

Morrie: You know what that reflects? Unsatisfied lives. Unfulfilled lives. Lives that haven’t found meaning. Because if you’ve found meaning in your life, you don’t want to go back. You want to go forward. You want to see more, do more. You can’t wait until sixty-five.

in Tuesdays with Morrie

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Um

Demorei-me em escrevê-lo, foi um atraso premeditado. De quem no primeiro dia já espera o último só para terminar de matar a sede.
Quis vê-lo crescer, cobrar-lhe em intensidade cada ano em que não germinou.
Que nos amores é isso que subsiste. Quer-se sempre mais do que é dado e do que se acha que é permitido. 
Esperei porque acho que os amores devem amadurecer antes de sair à rua.
 Precisam de um período de entrosamento, um segredo a dois, como aquele de "só quem está no convento é que sabe o que lá vai dentro".
Por isso, passou um. O melhor. 
E apesar de já te conhecer cada recanto, tenho agora 5 anos para continuar a saber quem és, Medicina.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Perdidos não achados

Roubou o telemóvel à Mãe e ligou-me. Não falou, estranhei. Ficou a soluçar repetidamente até que o choro diminuísse.
Dei-lhe tempo, e, de cima das pantufas que sei que nunca larga – as da Minnie –  perguntou-me directa, sem rodeios, se não tinha medo de perder coisas.
 Fiquei inerte com a inocência de uma pergunta tão cortante mas que só escondia as lágrimas pelo peluche perdido.
Respirei mais devagar para ganhar tempo (que nunca seria suficiente) e procurei dar-lhe a resposta que não quis encontrar no colo da avó.
 É sempre tão complicado dar-lhe uma verdade que não borre com o tempo.
Mas respondi-lhe. 
Disse-lhe que não, que não tinha medo de perder quase nada e que isso não era bom - viver como se nunca tivesse nada a perder. Que temos. Sempre.
Alertei-a para isso com um português que lhe chegasse.
 Calou-se, num silêncio que não esgota perguntas.
Aceitou a resposta, contudo, não soube como lhe explicar a dualidade que existe entre não ter medo mas não gostar.
E porque me lembro que naquela idade “outro não é o mesmo”, evitei negociar-lhe a sobra de lágrimas com um peluche novo; disse-lhe antes que a levava a um sítio que ainda não tinha ido. 
De volta aos 6 anos - e ainda bem - impôs paragem obrigatória nos gelados e despediu-se com a rapidez de quem diz que já perdeu os desenhos animados no canal Panda.

terça-feira, 15 de abril de 2014

Para ontem

As saudades entregam-se com antecedência porque os detalhes acordam a memória.
O tempo acelera, mas os dias não se distraem da sombra que o sol não volta a ver.
Paralisa-se.
A vontade de abraçar torna-se urgente porque nunca deixa de se querer para ontem.
Quer-se tudo para ontem.
Os anos só alargam o que fica por dizer e, se as paredes narrassem histórias, teriam tanto as que foram como as que nunca tiveram oportunidade de o ser. 
O pior de tudo é que a saudade tem uma fome que não passa. Não sacia, nunca.
Julga-se que o que se tem nunca vai ser tanto quanto o que se achava que se poderia ter tido - mas é.
Por isso, segue-se com a quietude de que nada amarga o que se deixou doce.
E dorme-se bem de noite porque a vida não questiona se aquele afecto poderia ter sido maior.
  É o único amor que não demora, chega com 9 meses de véspera.

terça-feira, 8 de abril de 2014

Touch


 Duvido sempre de quem diz que não há nada mais importante que os olhos. 
Fico a achar que o mundo se esqueceu de acordar essas pessoas.
As mãos são a continuação dos olhos porque envolvem aquilo a que a vontade não consegue chegar. Convidam-nos a falar.
O toque, esse, é a via mais rápida de chegada aos outros e não existe o que os olhos queiram que as mãos não trilhem.
No fim de contas, é esta a razão de se crescer com os "olhos na ponta dos dedos".

domingo, 23 de março de 2014

Até amanhã

Dizer "até amanhã" a alguém é impôr um contrato por mais um dia sem pedir licença.
Ninguém é obrigado a fazer parte das 24h seguintes.
É por isso que cada vez digo menos "até amanhã", não só pela liberdade que imprime a quem decide ficar, mas porque economiza palavras entre pessoas que não têm que se despedir.