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Os olhares falam as palavras que a boca não pronuncia, talvez esse seja afinal o nosso sentido mais apurado.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Perdidos não achados

Roubou o telemóvel à Mãe e ligou-me. Não falou, estranhei. Ficou a soluçar repetidamente até que o choro diminuísse.
Dei-lhe tempo, e, de cima das pantufas que sei que nunca larga – as da Minnie –  perguntou-me directa, sem rodeios, se não tinha medo de perder coisas.
 Fiquei inerte com a inocência de uma pergunta tão cortante mas que só escondia as lágrimas pelo peluche perdido.
Respirei mais devagar para ganhar tempo (que nunca seria suficiente) e procurei dar-lhe a resposta que não quis encontrar no colo da avó.
 É sempre tão complicado dar-lhe uma verdade que não borre com o tempo.
Mas respondi-lhe. 
Disse-lhe que não, que não tinha medo de perder quase nada e que isso não era bom - viver como se nunca tivesse nada a perder. Que temos. Sempre.
Alertei-a para isso com um português que lhe chegasse.
 Calou-se, num silêncio que não esgota perguntas.
Aceitou a resposta, contudo, não soube como lhe explicar a dualidade que existe entre não ter medo mas não gostar.
E porque me lembro que naquela idade “outro não é o mesmo”, evitei negociar-lhe a sobra de lágrimas com um peluche novo; disse-lhe antes que a levava a um sítio que ainda não tinha ido. 
De volta aos 6 anos - e ainda bem - impôs paragem obrigatória nos gelados e despediu-se com a rapidez de quem diz que já perdeu os desenhos animados no canal Panda.

terça-feira, 15 de abril de 2014

Para ontem

As saudades entregam-se com antecedência porque os detalhes acordam a memória.
O tempo acelera, mas os dias não se distraem da sombra que o sol não volta a ver.
Paralisa-se.
A vontade de abraçar torna-se urgente porque nunca deixa de se querer para ontem.
Quer-se tudo para ontem.
Os anos só alargam o que fica por dizer e, se as paredes narrassem histórias, teriam tanto as que foram como as que nunca tiveram oportunidade de o ser. 
O pior de tudo é que a saudade tem uma fome que não passa. Não sacia, nunca.
Julga-se que o que se tem nunca vai ser tanto quanto o que se achava que se poderia ter tido - mas é.
Por isso, segue-se com a quietude de que nada amarga o que se deixou doce.
E dorme-se bem de noite porque a vida não questiona se aquele afecto poderia ter sido maior.
  É o único amor que não demora, chega com 9 meses de véspera.

terça-feira, 8 de abril de 2014

Touch


 Duvido sempre de quem diz que não há nada mais importante que os olhos. 
Fico a achar que o mundo se esqueceu de acordar essas pessoas.
As mãos são a continuação dos olhos porque envolvem aquilo a que a vontade não consegue chegar. Convidam-nos a falar.
O toque, esse, é a via mais rápida de chegada aos outros e não existe o que os olhos queiram que as mãos não trilhem.
No fim de contas, é esta a razão de se crescer com os "olhos na ponta dos dedos".

domingo, 23 de março de 2014

Até amanhã

Dizer "até amanhã" a alguém é impôr um contrato por mais um dia sem pedir licença.
Ninguém é obrigado a fazer parte das 24h seguintes.
É por isso que cada vez digo menos "até amanhã", não só pela liberdade que imprime a quem decide ficar, mas porque economiza palavras entre pessoas que não têm que se despedir.

sábado, 8 de março de 2014

Mulher

É-se mais Mulher quando numa escala de conformidade, a primeira pessoa do singular se aproxima mais de si que dos outros. Quando, a voltagem máxima, se se apaixona com facilidade por quem se é - não porque "tem de ser", mas porque "pode ser".
É-se mais Mulher nas horas em que se está aflitivamente bem nos próprios saltos, porque se se gosta com urgência de todos os centímetros de pele.
Sou apaixonada por poucas Mulheres, que nunca se pode ser fiel a muita coisa. Digo, leal a nenhuma, senão a algumas - a elas.
 A minha avó diz que há mais coisas pelas quais se é mais Mulher. Ainda estou a aprender, e juro, com as melhores.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

What love is

Os amores estão cheios de condições.
Certificam-se que o que veio tem mais do que se quer, do que se foge. E se trouxer verdade, fica. Vai ficando. 
O amor fica sempre mais um pouco.
Somos todos de amores diferentes, porque o amor é outra coisa aqui e ali.
Acredito no amor que lida com o pior do outro e que mesmo assim acolhe. Que expande o bom e melhora o mau.
Não o acredito noutra forma.
Não acredito naquele que paga à verdade com a mentira, que não explode porque está demasiado preocupado em conter-se. 
Acho que o amor se faz quando consome, quando balança a paz que aborreceria se houvesse todos os dias.
Gosto de um amor perturbador, mas que também acalme e sossegue. Que deixe respirar. Que esteja disponível para ser leal. Que se queira intenso.
Não acredito no que não cobra, que finge dar sem se importar receber, que não exige muito.
Mas acredito no amor porque um dia já me cruzei com ele. 
E não precisa de complementos. É o que é, e chega.

You don't?

"Everybody needs a reason why they run
Everybody wants to know what they're running from."