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Os olhares falam as palavras que a boca não pronuncia, talvez esse seja afinal o nosso sentido mais apurado.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

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Tenho pessoas de escrita difícil. Fazem-me o texto complicado.
Evito escrevê-las porque as palavras, que nelas se centram por inteiro, tornam-se ingratas por nunca ressalvarem de cada uma o suficiente, por nunca poderem ser a representação fiel daquilo que genuinamente são.
Nunca lhes sei se, do início, lhes poderia traçar o fim.
Fujo de escrevê-las. Por considerar que são em essência mais ricas do que aquilo em que as poderei compactar, com um espírito mais sagaz do que lhes poderei dar.
Gosto de sabê-las e de adivinhá-las, porque me condensam sempre que me acrescentam.
Na verdade, não gosto de escrevê-las porque gosto de reservá-las. E é por me permitirem esse egoísmo, de quem tem e não quer partilhar, que gosto tanto delas.
Mas, acima de tudo, por deixarem alguns dos meus defeitos render.

domingo, 26 de janeiro de 2014

Pertence-te

As pessoas conhecem-se sem se conhecer, porque se mostram querer saber-se.  
Escutam-se por uma voz que não ouvem - é aí que se reparam sem ver.
Conhecer é saber contar os outros numa história igual mas diferente da sua.
Acho que é assim que as pessoas se conseguem falar, pelo que conhecem de si, misturado numa maneira que é dos outros.
E não se mudando, mudam-se.
Nunca se pertence mais aos outros que a si mesmo. Ou é assim que deveria ser; não confundir identidades de impressões digitais diferentes.
Pertencer-se é tão seguro, como quem se aguenta em dois pés. Mas se não o fosse igualmente acrescentar-se, ninguém se equilibraria com o pé que restou, do que lhe foi tirado. 
Por muito mais, mas por isto, uma das melhores coisas não é possuírem-se - como quem não arranja espaço no cheio que cada um já é - mas pertencer-se. 
Quem se pertence, dá-se sem se confundir. E quem não se confunde, não é nada mais, do que aquilo que é, acrescentado ao que, sempre, espontaneamente, um dia o farão ser. 

Kind of contradiction

"I want to write a novel about silence…

  the things people don’t say."
Virginia Woolf

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

365


Quando um ano se resolve a ser melhor do que aquilo que previa, apura-se, e nada fica por lhe cobrar nas horas que lhe antecedem o fecho - não se lhe mexe nos temperos. 
Só é preciso dar o dia, ao dia. Deixá-lo ser.
Não esperar mais do muito que já nos deu; por ter sido em cada momento, melhor que a encomenda.
E, pessoalmente, apesar de ser mais de conquistas que de desejos, gasto o meu único para que naquela meia-noite comece o melhor, que o melhor.
Mas mesmo que se atrase, um ano faz-se sempre a tempo. 

sábado, 14 de dezembro de 2013

Life is about december


Gostava que o calendário fosse cheio de Dezembro. Dezembro 1, Dezembro 2, Dezembro 3, Dezembro 7, Dezembros. Doze.
É nele que vejo o frio ser mais quente, o amargo mais doce, o longe mais perto, o ir mais ficar, o pouco mais muito.
Nunca sei os dias do mês, mas conheço-lhe a chegada pela alma que só estas vésperas sabem trazer, pela vontade que se passeia pelas ruas, pelas mãos que se dão mais. E identifico-o pelas medidas; é mais cheio de tudo.
Em Dezembro as pessoas desnudam-se. E aprecio, aprecio francamente quando as pessoas se coordenam de norte a sul - pertencem-se mais.
 Mas nas horas, nas outras, a vida apetece-se também mais dos filhós da avó inebriados com as histórias do avô, do bacalhau da madrinha acompanhado das meninices do primo e do padrinho, do bolo rei de compra da mãe garfado com as cartadas com o pai.
 É disto que o mundo - digo, as pessoas - precisam mais; de dias que se bastem a si próprios, apanhados no meio de um tornado que traga, à pele, o coração.
Ao Natal, chamo-lhe Amor, por julgar que, por todos os dias, Amor lhe somos.

Look for

"Na minha opinião existem dois tipos de viajantes: os que viajam para fugir e os que viajam para buscar."


quinta-feira, 29 de agosto de 2013

BOMBEIROS



Quando tinha menos meio metro do que tenho agora, já me questionava se algum dia teria coragem para dar a vida por alguém. Nunca tive que fazer essa escolha.
Mas hoje, infeliz e forçosamente, recordo todas essas passagens de tempo por culpa do deflagrar de chamas que tem assombrado o Verão e destruído famílias de uma forma impiedosa.
Na inocência da criança que era, achava que se algum dia me o perguntassem, trautearia um sim ou não, como quem responde sem o pesar daquilo que chamam "uma pergunta de vida ou morte".
Que leviana é a infância.
Os adultos, perdoem-me, os Bombeiros, como que frutos maduros de época – aquela em que são o melhor que podem ser (e que incrivelmente o são todo o ano) – não se dão a escolhas de criança. 
Articulam um sim, daqueles que se tem na ponta da língua, os imediatos, sem impasse, aqueles em que não se considera uma segunda opção.
Tenho um Bombeiro mais irmão que primo, e sei o sufoco que é ouvir o número de toques da sirene que dão como certo aquele desgraçado fogo ou outro drama qualquer. O significado do som é sempre o mesmo: o recrutar de corajosos.
 E nesses momentos, quando se lhes pede para ficarem, eles vão; quando se lhes aconselha o "cuidado contigo", eles vão a correr cuidar dos outros.
E fico verdadeiramente feliz, quando lhe vejo nos olhos o orgulho de quem leva nos passos a vontade e não o dever, de quem vai e tem como única certeza, a incerteza da volta.
Creio que seja isso o significado de ser Bombeiro.
Há muitos anos que conheço como ninguém os traços das mãos de quem gostava de salvar vidas com eles, mas não consigo encontrar em nenhum desses incontáveis dias, nada mais nobre e humano do que os que dão os traços das suas, pela vida das mãos dos outros.
Bem hajam.