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Os olhares falam as palavras que a boca não pronuncia, talvez esse seja afinal o nosso sentido mais apurado.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

BOMBEIROS



Quando tinha menos meio metro do que tenho agora, já me questionava se algum dia teria coragem para dar a vida por alguém. Nunca tive que fazer essa escolha.
Mas hoje, infeliz e forçosamente, recordo todas essas passagens de tempo por culpa do deflagrar de chamas que tem assombrado o Verão e destruído famílias de uma forma impiedosa.
Na inocência da criança que era, achava que se algum dia me o perguntassem, trautearia um sim ou não, como quem responde sem o pesar daquilo que chamam "uma pergunta de vida ou morte".
Que leviana é a infância.
Os adultos, perdoem-me, os Bombeiros, como que frutos maduros de época – aquela em que são o melhor que podem ser (e que incrivelmente o são todo o ano) – não se dão a escolhas de criança. 
Articulam um sim, daqueles que se tem na ponta da língua, os imediatos, sem impasse, aqueles em que não se considera uma segunda opção.
Tenho um Bombeiro mais irmão que primo, e sei o sufoco que é ouvir o número de toques da sirene que dão como certo aquele desgraçado fogo ou outro drama qualquer. O significado do som é sempre o mesmo: o recrutar de corajosos.
 E nesses momentos, quando se lhes pede para ficarem, eles vão; quando se lhes aconselha o "cuidado contigo", eles vão a correr cuidar dos outros.
E fico verdadeiramente feliz, quando lhe vejo nos olhos o orgulho de quem leva nos passos a vontade e não o dever, de quem vai e tem como única certeza, a incerteza da volta.
Creio que seja isso o significado de ser Bombeiro.
Há muitos anos que conheço como ninguém os traços das mãos de quem gostava de salvar vidas com eles, mas não consigo encontrar em nenhum desses incontáveis dias, nada mais nobre e humano do que os que dão os traços das suas, pela vida das mãos dos outros.
Bem hajam.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Still



Escrevo-te hoje, porque não sei quando voltarei a fazê-lo. Há muito tempo que não sei quando será a próxima vez.
Tudo isto porque, inegavelmente, recusar-me-ei em todos os dias da minha vida, correr o risco de não me entregar seja naquilo que for por inteiro. 
Espero que agora compreendas.
A incerteza daquilo que te quero ou não dizer, até mesmo da forma como tenho que o fazer, paralisou-me a convicção de que sempre que te abriria, estaria à altura do que uma página em branco pode ser.
Não quis desiludir-te, quando apenas acredito nas palavras com que os outros se expressam, não mais nas que te confidencio. Seria injusto desfolhar-te, enquanto esta dualidade não desvanecer.
Foram várias as vezes em que te olhei. Olhei. Olhei apenas.
Escrevo-te hoje, porque no meio de todas as dúvidas, existe a certeza de que nunca haverá uma despedida.
(Ele chegou.) 
Vou ter que ir, deixar-te inacabado.
E prefiro assim, deixar-te pela metade cria a sensação de que voltarei, um dia.
Abri-te clandestinamente, enquanto o medo saiu. Mas voltou rápido.
E ainda que não possa estar por perto, acredita, continuarei sempre aqui.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Re's

É mais que uma cor. No branco repinta-se, reescreve-se e recomeça-se.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Olhar(es)

"O egoísmo pessoal, o comodismo, a falta de generosidade, as pequenas covardias do quotidiano, tudo isto contribui para essa perniciosa forma de cegueira mental que consiste em estar no mundo e não ver o mundo, ou só ver dele o que, em cada momento, for susceptível de servir os nossos interesses."
 José Saramago

One of so many things


Tenho abraços guardados, sem nome nem senhor. 
São aqueles que ficaram abandonados, sentados sozinhos, invejando inocentemente os outros; aqueles, que tiveram a sorte de marcar uma história.
É isso. Tenho abraços à espera de um nome. Do nome e da história.
E abraços, são isso, abraços.

sábado, 10 de novembro de 2012

Pé-de-apoio

 
"Ela é muito inteligente; inteligente demais, para uma mulher. Falta-lhe o vago encanto da fraqueza. São os pés de barro que dão valor ao ouro da estátua. E os pés dela, pés mimosos, não são de argila. Passaram pelo fogo, e o fogo enrijece o que não consome." 
Oscar Wilde

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Sabedoria

 
"As I grow older, I pay less attention to what men say. I just watch what they do."
Andrew Carnegie