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Os olhares falam as palavras que a boca não pronuncia, talvez esse seja afinal o nosso sentido mais apurado.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Quotes

"O truque da filosofia é começar por algo tão simples que ninguém ache digno de nota e terminar por algo tão complexo que ninguém entenda."
Bertrand Russell

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Aprender direito

Era uma miúda quando aprendi a ler notas numa pauta; apresentaram-me as 5 linhas equidistantes, a Clave de Sol, a Clave de Fá e nem a de Dó ficou pelo caminho. Depois vieram as colcheias, os semibreves, as mínimas, as semínimas, o sustenido, o bemol, o bequadro e seguiram-se as pausas.
Ensinaram-me que devia olhar para a guitarra como uma amiga, estabelecer com ela uma relação de criatividade e dar-lhe espaço para que falasse por mim, se a voz adormecesse. Disseram-me que a sua companhia me tornava poliglota, porque os acordes eram entendidos em todas as línguas.
Já era uma mulher quando aprendi que as palavras são como as notas de todas as pautas que li - têm um momento de reprodução - e tal como é necessário ter sensibilidade para dar música, poder de instinto para enquadrar a nota certa na melodia, é urgente aprender que falar a alguém requer sentido de oportunidade.
Ao longo dos anos, desenvolvi a precisão dos compassos com que deveria tocar cada nota, mas esqueci-me de acertar os tempos às palavras. Por isso, já disse amo-te mais tarde do que era suposto e já recuei certezas com medo que fossem só minhas.
Sabes, o bom das palavras é que obedecem ao ditado: antes tarde que nunca; e felizmente, ao contrário das aulas de guitarra, a vida dá lições que demoram uma vida inteira.

Quotes

"The first step towards getting somewhere is to decide that you are not going to stay where you are."
John Pierpont

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

A Crónica

"Estou no autocarro a caminho de casa dos meus pais. Até aqui apanhei um taxi, um metro, um comboio, um avião, outro taxi e agora este autocarro. Numa das paragens vejo um filho ser recebido com gritos pela família, o pai a esfregar-lhe a barriga, o irmão a gargalhar e a mãe com os braços muito abertos. Sei imediatamente que ele vem de longe, como eu, de uma distância que não se pode atravessar sempre que se quer, uma distância que nos impede de pertencer à rotina.

Lembro a minha primeira grande despedida, há quase 4 anos. No aeroporto, entre família e amigos, aguentei com um nó na garganta as lágrimas alheias e percebi que a felicidade está directamente ligada ao amor destas pessoas que a vida fez o favor de colocar ao meu lado, pessoas que me amam e ao mesmo tempo compreendem que tenho de ir.

Desde então já vivi muitos reencontros e muitas despedidas, já chorei em aeroportos ao deixar quem não queria ver partir, já fui só abraços e alegria, e já vivi a solidão de chegar a sítios onde ninguém me espera. Enquanto eu transito, estas pessoas aguardam na repetição dos dias que a minha chegada os torne um bocadinho mais cheios.

A caminho, penso no conforto estrutural e inabalável do quotidiano, que a minha ausência não faz colapsar. Um sítio-amor a que posso voltar sempre, e onde sinto que nunca fui embora. Estou constantemente em dívida, de arma em riste contra a ausência, e ainda assim falho, porque não consigo melhor.

Chego pelo mesmo caminho de sempre, de que conheço todas as curvas e cruzamentos. Adivinho o sorriso e o abraço apertado, abraço por todos os abraços que ficaram por dar hoje, esta semana, este mês. Antecipo o cheiro a jantar, o ruído da televisão na sala, os desenhos da toalha na mesa. Sei de cor como será a minha chegada, de tantas vezes que a vivi. Sei-a tão bem que me parece sempre a mesma, uma eterna chegada a uns braços abertos.

A saudade, que só se tem em ausência, é ainda assim um saco que nunca se esvazia, mesmo quando estamos juntos todos os dias, porque são dias contados. Nunca poderei devolver a quem amo os dias que lhes retirei. Posso só tentar que os que partilhamos sejam grandes. Posso só ser mais amor, tentar ser menos falha, e pedir com a humildade da minha pequenez que a vida me permita dar-lhes muito mais."

sábado, 14 de julho de 2012

(A)caso

"Só o acaso pode ser interpretado como uma mensagem. O que acontece por necessidade, o que já era esperado e se repete todos os dias é perfeitamente mudo. Só o acaso fala. Nele é que deve tentar-se ler, como as ciganas fazem com as figuras deixadas no fundo de uma chávena pela borra do café."
Milan Kundera, em "A Insustentável Leveza do Ser"

quinta-feira, 12 de julho de 2012

A verdade

"Quem sabe ler e não lê, não tem nenhuma vantagem sobre aquele que não sabe ler."
Benjamin Franklin

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Tic-tac

Desengane-se quem espera, as mãos nos bolsos não vêem horas e o tempo não adianta só a vida, também a sabe atrasar.
Muitas vezes, quer-se com tanto afinco uma coisa, luta-se ao mesmo tempo tanto por uma outra, que a dedicação não seduz o tempo e o teimoso imobiliza-nos no calendário.
Há momentos em que a vida impõe os seus próprios ímpetos, segue sem pedir autorização e desembaraça-se; resolve-se sozinha.
Apanhar-lhe a boleia, não é conceder-lhe o livre-arbítrio; é calçar os chinelos e estar preparado para não recusar a ajuda do vento e o balançar da estrada.
Afinal, se o tempo voa, nós podemos voar com ele.